Pular para o conteúdo principal

Furto no Canadá

No último texto, fiz referência a um furto de que fui vítima no Canadá e prometi que o relataria, o que faço agora. Era o ano de 2006 e resolvi, juntamente com minha esposa, fazer uma viagem, por intermédio de uma operadora dos EUA,  cujo trajeto ia de New York até o Canadá, retornando a NY. Sempre ouvi dizer que este país era de primeiríssimo mundo, inclusive de brasileiros que ali residem. Mas a minha decepção se iniciou quando fui providenciar o visto de entrada: se fizesse por mim mesmo demoraria alguns meses; por intermédio de um despachante, demoraria alguns dias. A segunda decepção veio quando fiquei sabendo que o visto era válido por apenas 6 meses e dava direito a somente uma entrada. A terceira veio quando entrei: o funcionário da imigração inutilizou o visto. A quarta veio quando tomei conhecimento que, embora o dólar canadense valesse menos do que o estadunidense, os comerciantes canadenses os equiparam: uma compra paga com dólar estadunidense terá o troco em dólar canadense na proporção de um por um (este fenômeno ocorre em algumas lojas na Suíça: pagando a compra com euro, o troco será em franco suíço, que vale menos).
A quinta decepção decorreu da segunda: éramos 3 casais brasileiros em Toronto e resolvemos sair do hotel para jantar; no caminho, paramos numa loja de souvenirs, pois eu pretendia comprar alguns objetos. Já os havia escolhido e percebi que não tinha dólares canadenses, apenas estadunidenses. Um daqueles brasileiros ofereceu-se para emprestar-me a quantia - não ultrapassava os 10 dólares - para que eu não caísse na esparrela de receber troco a menos. Apanhei a quantia e a coloquei juntamente com os objetos no balcão. Ao meu lado havia um afrocanadense, que, inesperadamente, começou a discutir com a caixa: uma das frases que ouvi era que os vendedores davam mais atenção aos turistas do que aos da cidade. Ele disse que queria falar com o gerente e outras coisas. Olhei para o balcão e vi apenas os objetos: o dinheiro não mais estava ali. Pensei que o houvera colocado de novo num dos bolsos, procurei, mas não o encontrei. O afrocanadense retirou-se da loja, bravo. Uma canadense, também afrodescendente, tocou o meu ombro e me disse que aquele rapaz havia subtraído o meu dinheiro. Toda aquela pantomima nada mais era do que um estratagema para distrair-nos e poder subtrair a quantia. Óbvio que fiquei chateado, mas depois foi motivo de riso entre nós: em outro país, e de primeiríssimo mundo, fui vítima de uma daquelas pessoas que aqui no Brasil eu era encarregado de defender. Ademais, aplicando-se ao fato um princípio muito em voga na justiça criminal brasileira, o da insignificância, o fato não seria punido.
É isso: o crime contra o patrimônio há tempo desconhece fronteiras.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A mulher honesta no Código Penal

O Código Penal de 1940 (que entrou em vigor no ano de 1942, a 1º de janeiro) trazia no artigo 215 – crimes contra os costumes - a descrição da conduta criminosa chamada “posse sexual mediante fraude”. Era, por assim dizer, o oposto do estupro, que vinha descrito no artigo 213, em que a conjunção carnal era obtida mediante o emprego de violência ou grave ameaça. Na “posse”, a conjunção carnal era obtida com o emprego de fraude, o que levou algum doutrinador a apelida-la de “estelionato sexual”. A descrição típica era esta: “ter conjunção carnal com mulher honesta, mediante fraude”, com a pena de reclusão, de 1 a 3 anos. O artigo seguinte (216) definia o crime de atentado ao pudor mediante fraude, assim redigido: “induzir mulher honesta, mediante fraude, a praticar ou permitir que com ela se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal", com a pena de reclusão de 1 a 2 anos. O emprego do conceito “mulher honesta”, ou somente “honesta” vem de longa data, desde as Ordenações Fi…

O cunhado de Ana Hickmann e o excesso na legítima defesa

Dia de branco

Durante a minha adolescência era comum dizermos no domingo à noite: “vamos embora que amanhã é dia de branco”. Ou: “segunda-feira é dia de branco”. Ninguém sabia o significado destas palavras, mas, para nós, significava que deveríamos nos recolher porque no dia seguinte trabalharíamos. Depois de quase 50 anos passados dessa época, e tendo em vista o que li num jornal local, resolvi pesquisar no Google o significado da expressão. Tudo parece fácil hoje: basta abrir o “site” de busca e digitar o que se pretende buscar. Pois bem, digitada a expressão, surgiram várias referências e a que me chamou a atenção foi a do Yahoo, em que é escolhida uma resposta dentre as várias ali postadas. Transcrevo algumas: 1. “É uma frase extremamente preconceituosa e racista, e que vem sido citada desde o início do século passado. Seria como dizer que os negros são vagabundos e só os brancos trabalham.”;
2. “ouvi dizer q na época de escravidão, sábado e domingo eram a folga dos negros na época …