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Abraham Lincoln


No ano de 1968 foi lançada uma música chamada “Abraham, Martin and John”, e uma das gravações era de uma comediante chamada Moms Mabley. Não sei se sempre, mas ela lembrava a "Catifunda", personagem de Zilda Cardoso, inclusive pelo charuto. As palavras iniciais da canção eram estas: has anybody here/ seen my old friend Abraham/ Can you tell me where he’s gone?/ He freed lotta people/ but it seems the good they die young/ You know I just looked around and he’s gone. A música, como o nome já demonstra, era uma homenagem a 3 heróis da história dos EUA. Na canção há outro herói: Bobby Kennedy.
            Não pude deixar de pensar nessa música ao assistir ao filme “Lincoln”,  de Steven Spielberg, com Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones e um elenco de tirar o fôlego. O filme se baseou numa pequena parte da biografia de Abraham Lincoln, escrita por Doris Keams Godwin (“Team of rivals: the political genius of Abraham Lincoln”), apenas aquela parte de sua vida centrada na luta pela aprovação da 13ª emenda, a que aboliu a escravidão. Tal se deu em plena Guerra de Secessão, uma luta que durou de 1861 a 1865, e provocou a morte de mais de 600 mil americanos.
            Num dos “takes”, o presidente  afirma aos seus assessores que confiscaria os escravos dos estados rebeldes. Ante a perplexidade de todos, ele explica que as leis daqueles estados tratavam os escravos como coisas (propriedades) e pela leis da época o presidente da República poderia confiscar propriedades...
            Esse simples “take”, ou melhor, essa simples frase, em outro filme, “Amistad”, do mesmo diretor, é o tema central: versa sobre a posse de um navio espanhol apreendido pela Marinha estadunidense. A nau transportava africanos que haviam sido sequestrados para ser leiloados como escravos. Eles se amotinaram, mataram quase todos os tripulantes e assumiram o comando da embarcação. Foram aprisionados. A posse do navio e “da carga” (sim, escravos eram “coisas”, e, pois, cargas) passa a ser disputada judicialmente entre o reino da Espanha (sua rainha Isabela, uma criança), os comerciantes que alegavam possuí-los, os oficiais da Marinha estadunidense que fizeram a apreensão e uma ONG que lutava contra a escravidão e os queria soltos. A querela termina na Suprema Corte e o advogado da ONG (digo: dos africanos) nessa fase era um ex-presidente, John Quincy Adams, magnificamente representado por Anthony Hopkins: o seu discurso perante a Suprema Corte é de emocionar.
            O filme “Lincoln" não retrata o discurso proferido por Lincoln na inauguração do cemitério de Gettysburg, no dia 19 de novembro de 1863. Nos arredores dessa cidade da Pennsylvania houve uma batalha que durou 3 dias e provocou o maior número de mortos na guerra. Na inauguração do cemitério, Lincoln proferiu um discurso apaziguador, elogiando ambos os lados: em apenas 269 palavras e menos de 2 minutos ele eletrizou a plateia. Era uma das suas características: falar pouco. O filme, de forma emocionante, mostra, logo no início, alguns soldados conversando com o presidente e declamando o seu discurso.  Há um filme “B” que mostra esse discurso na íntegra e um diálogo entre o presidente e o seu Secretário da Fazenda, digno de constar nos anais da cinematografia. Chama-se "Tributo à liberdade", direção de Jack Bender ("Brinquedo assassino 3" e algumas séries como "Lost", "Alcatraz"), com Jason Robards e Lukas Haas.
            Tenho a impressão de que hoje, 29 de janeiro de 2013, assisti ao filme que “abocanhará” ao menos 3 estatuetas no dia 24 de fevereiro de 2013: melhor filme, melhor diretor e melhor ator (se não levar também o de melhor ator coadjuvante).





(Neste local, em Washington, funcionava o teatro em que foi morto o presidente Abraham Lincoln - a foto foi feita por mim.)

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