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As várias mortes do prefeito - capítulo 89



Nesse depoimento, a ex-companheira de “Anso” - e irmã de Valmires – depôs e afirmou conhecer “Andinho”, “Valmirzinho” e “Fiinho”, admitindo, ainda, ter sido “Anzo” seu “marido”. Na época de seu depoimento ela estava presa na Cadeia Pública de Indaiatuba, cumprindo pena por tráfico de entorpecentes. Sobre a morte do prefeito – e era este o motivo de sua oitiva -, disse que seu “marido” negou ter dele participado.
                        Em seguida, componentes do GAERCO de Campinas requereram a juntada aos autos de depoimentos (testemunhas “A” e “B”[1]) que foram tomados em sua sede, bem como a oitiva delas em juízo e, finalmente, que fosse requisitada cópia do inquérito policial que tramitara na cidade de Sumaré e em cujo bojo estaria apreendida a arma calibre 9mm utilizada na morte do prefeito (tal fato fora afirmado pela testemunha Geraldo.
                        A testemunha “A” era empregada de uma empresa de Bauru que prestava serviços, mais especificamente de segurança patrimonial, à SANASA. A empresa bauruense tinha dois irmãos como sócios majoritários, de nomes Airton e Jair. Depois de discorrer longamente sobre um suposto “esquema” de corrupção que ocorria na prestação do serviço, citando nomes de várias pessoas e várias quantias, a testemunha chegou ao ponto que mais interessava ao processo: ela teria ouvido um diálogo entre Ramiro (sócio minoritário da empresa que prestava os serviços) e Clóvis (segundo as suas palavras, uma espécie de gerente administrativo).
                        “Clóvis – Ramiro, não está tendo mais jeito, estamos tentando de tudo. O Toninho está apertando demais, isso para nós está ficando sufocante, porque uma hora ele pede uma coisa, outra hora ele pede isso; por outro lado, não podemos montar nada, porque não sabe se vai ficar, se não vai ficar.
                        Ramiro – É, esse cara é que nós temos que dar ‘baixa’”.
                        “Dar baixa” no prefeito, como se sabe, em outras palavras significa matá-lo.
                        A segunda testemunha ouvida pelo GAERCO também trabalhava na empresa de Bauru que prestava serviços à SANASA e afirmou ter ouvido um trecho da conversa em que se falava da necessidade de “dar baixa” no prefeito


[1] . Nomes omitidos com base no Provimento 32/00 da Corregedoria Geral de Justiça de São Paulo.

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