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As várias mortes do prefeito - capítulo 47


Capítulo 47
                        No dia 11 de março, no prédio das Promotorias Criminais de Campinas, presentes cinco Promotores de Justiça, o Delegado do DHPP e o advogado da família, foi ouvida uma mulher, de nome Sandra, que, juntamente com sua filha, fora seqüestrada por “Andinho” e estava em cativeiro quando o prefeito foi morto. Descreveu o seqüestro e reconheceu algumas pessoas como tendo participado do fato: Paulo, Marcio e Edmar.
                        Aos 14 de março, nas dependências da 1ª Delegacia da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa do DEIC, na presença o Delegado de Polícia titular, de dois Promotores de Justiça e do advogado da família do prefeito, foi novamente ouvido Cristiano Nascimento de Faria, “Cris”, na condição de testemunha. Relatou, da mesma forma como fizera, os crimes de seqüestro praticados por ele, “Andinho” e outras pessoas; a forma como foi preso (numa chácara em Limeira, que servia de cativeiro), a fuga do Centro de Detenção Provisória de Hortolândia; surpreendentemente, a certa altura de seu depoimento, disse o seguinte: “esteve cerca de três ou quatro dias antes da morte de VALMIR e ANZO, em uma casa onde estes se encontravam, localizada na cidade de Caraguatatuba; nessa ocasião o depoente comentou com ANZO que Campinas estava ‘sujo’ por causa da morte do prefeito, ocasião em que ANZO lhe disse ‘a morte do prefeito foi uma cagada, ele estava na hora errada e no lugar errado’; ANZO lhe disse ainda ‘a gente ia catar o cara do Vectra, aí o Vectra conseguiu fugir, e aí o VALMIR tentou enquadrar e deu um tiro no Vectra’; salienta ainda que ANZO comentou que ‘ia catar um Véio’[1], que seria empresário[2]; diante disto nós fomos embora, foi quando encontramos com um Palio que atrapalhou nóis (“sic”) aí eu (ANZO) tirei a arma para fora e dei um tiro para fora para assustar o motorista; na seqüência o VALMIR deu mais um tiro também; aí nós paramos e carro, eu (ANZO) desci, olhei que a vítima estava ferida e fomos embora; depois o Valmir dispensou o carro, pois havia ‘sujado’. Algum tempo depois, naquela mesma noite, ao verem o noticiário de televisão, souberam que a vítima do Palio tratava-se do Prefeito de Campinas, iniciando-se uma discussão entre ANZO e FIINHO, sendo que ANZO contou ao depoente que FIINHO havia discutido com ele dizendo que ele havia feito uma ‘cagada’, sendo que ANZO disse ainda que tal discussão teve participação de todos que estavam no Vectra prata, sendo que os indivíduos FIINHO, ANZO, VALMIR e ANDINHO, todavia só discutiram FIINHO e ANZO; esclarece também que durante a conversa que teve com ANZO este lhe disse que quem conduzia referido veículo era o VALMIR, sendo que ANZO estava ao seu lado como passageiro no banco dianteiro direito; esclarece que VALMIR já usava este Vectra prata há algum tempo, não sabendo descrever quanto tempo seria; não era comum o uso de capuzes[3] quando ‘enquadravam’ as vítima, apenas nos cativeiros; informa que durante a conversa supra citada entre o depoente e ANZO, também estavam presentes VALMIR e os outros dois indivíduos que morreram em Caraguatatuba, ou seja ‘LAGARTIXA’ e ‘TAN’; dentre esses só haviam participado da ‘fita’ do prefeito VALMIR e ANZO; enquanto ANZO comentava acerca deste fato, VALMIR nada disse; após o final da conversa, o depoente disse para ANZO ‘puta, foi cagada’, onde VALMIR falou ‘foi cagada mesmo’; informa que ANZO lhe disse ainda que quando foram ‘güentar o véio’ do Vectra verde, foi o VALMIR quem atirou com uma pistola calibre 45 mm, cromada, marca Taurus, a qual VALMIR gostava de usar, enquanto que contra o Fiat Palio conduzido pelo prefeito, foi utilizada uma pistola calibre 9 mm que seria de propriedade de ANZO”. E a seguir, completou: “que informa que ANZO afirmou categoricamente para o depoente que no dia da morte do prefeito estava (“sic”) no Vectra o próprio ANZO, VALMIR, ANDINHO e FIINHO, quando da conversa em Caraguatatuba; informa ainda o depoente que quando esteve em Caraguatatuba, pôde observar que ali havia um pistola calibre 9 mm, não sabendo de quem era, diante disto perguntoy se era a mesma arma que foi utilizada por ANZO para dar o tiro, referindo-se ao delito do prefeito de Campinas, ocasião em que ANZO disse que não era a mesma arma, porque a arma utilizada naquele crime fora deixada no Jd. Paranapanema, com o adolescente de vulgo ‘DECA, o qual trabalha em uma ‘biqueira’; quanto à pistola calibre 45 mm de VALMIR o depoente nada perguntou, não sabendo qual o seu destino; que esclarece que surgiu um comentário que ANZO tinha saído com a mulher de ANDINHO”. Enfatizou: “confirma na presença de ANDINHO que o mesmo, segundo lhe disse ANZO com muita firmeza, participou na morte do prefeito de Campinas; esclarece que está tranqüilo para participar de qualquer tipo de acareação com ANDINHO”. Informou que “ANZO sempre foi um indivíduo ‘esquentado’ e ‘nervoso’ acostumado a matar por qualquer motivo”.
                        Este surpreendente relato colidia frontalmente com o que até então se tinha dito como uma das versões do fato: a existência de um Vectra prata que havia trafegado em alta velocidade na Avenida Mackenzie, pois este Vectra, segundo os depoimentos de todas as testemunhas até então ouvidas, em nenhum momento havia parado e dele descido alguém para olhar dentro do Palio. Em outra colisão frontal, alguns depoimentos apontavam que no Vectra prata estava uma só pessoa, o motorista.


[1]. Seria Uilson, que dirigia o Vectra verde na noite de 10 de setembro, na rua Nova Granada.
[2]. Uilson é funcionário público aposentado e não empresário.
[3]. Uilson e Celso, ambos ocupantes do Vectra verde, disseram que as pessoas que ocupavam o outro carro – que não souberam sequer dizer a marca – usavam capuzes.

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