Pular para o conteúdo principal

A rebelião no "cadeião" de Campinas



      Na década de 70, mais precisamente no ano de 1974, Campinas ganhou uma cadeia pública localizada na rua João Batista Morato do Canto, n° 100, bairro São Bernardo; a construção iniciou-se em 1973. Até então, os presos ficavam confinados num prédio situado na esquina da rua Sebastião de Souza com a avenida Andrade Neves; a entrada era pela rua Sebastião de Souza, n° 150. Já vivia o fenômeno da superlotação, ficando os detentos amontoados. Certa vez, um dos juízes criminais da comarca de Campinas registrou em sentença que aquilo não era uma cadeia, mas um “mero depósito de homens”.
      Com a inauguração da nova cadeia, que, com a excelente disposição do campineiro para pôr apelido em tudo[1], logo passou a ser chamada de “cadeião do São Bernardo”, para ali foram transferidos os presos que estavam no “depósito de homens”. Não demorou para que houvesse a superlotação. Esta, em geral, funciona como uma “panela de pressão”, pois em lugares que cabem poucos e são postos muitos, aumenta-se o risco de desentendimentos.
      Até que no dia 13 de setembro de 1981, um domingo, por volta de 20 horas e 30 minutos “estourou” uma rebelião: os 460 presos que ali estavam “serraram os cadeados e grades das 34 celas que ocupavam e incendiaram colchões, roupas e aparelhos que possuíam, no pátio central do prédio”[2]. O estopim da revolta foi um desentendimento entre um carcereiro, chamado João Baiano e um dos ocupantes da cela 34, - “onde se encontravam os considerados perigosos” -: ofendido pelo carcereiro, o detento atirou-lhe café quente.
      Para ajudar a conter a revolta, um pelotão de choque da Polícia Militar, composto de 50 soldados, veio a Campinas, comandado pelo Capitão Nakaharada, e, depois de tentativa de pôr um fim pacífico ao evento, por volta de meia-noite invadiu o prédio. O inventário apontou 3 mortos e 73 feridos; entre os mortos estava um conhecido nos meios judiciais e policiais de Campinas, Luís Castro Peixinho, vulgo “tigrinho”, apontado como um dos líderes da rebelião. Outros dois mortos eram Amauri Ribeiro Filho e Fernando do Nascimento Filho, alcunhado “ladrão solitário”.
      Luís Nakaharada, que comandava o pelotão de choque que invadiu o presídio, onze anos depois, já na condição de coronel, esteve envolvido na invasão do Carandiru e que resultou na morte de 111 presos. Por conta desta invasão, ele foi acusado individualmente de ter matado 5 presos no Pavilhão 9. Mas a trama da vida não permitiu que por estas mortes ele se sentasse no banco dos réus: aos 14 de dezembro de 2013 ele sofreu um infarto e faleceu; estava na reserva. No ano seguinte, 2014, o vereador Luiz Benko apresentou à Câmara Municipal de São Paulo um projeto de lei dando o nome de Coronel Nakaharada a uma rua daquele município.
      O Um detalhe curioso – no mínimo, estranho – cerca o episódio da rebelião no “cadeião do São Bernardo”: as notícias a seu respeito são escassas e nem uma busca no Google produz algum resultados.
      Outro detalhe: por causa desse episódio, fui designado para, na condição de Procurador do Estado, no ano de 1983, prestar assistência jurídica aos presos daquele local.


[1] . Em Campinas, até logradouros públicos têm apelido: a Avenida José de Souza Campos é conhecida por “norte-sul”: a Praça Professora Sylvia Simões Magro é conhecida por “Largo São Benedito”; a Praça Imprensa Fluminense é apelidada de “centro de convivência”.
[2] . Conforme matéria do jornal Correio Popular, edição de 15 de setembro de 1981.

Comentários

  1. Caro Silvio
    "Depósitos de homens" vêm aumentando e os problemas deles decorrentes são muito conhecidos das nossas autoridades que, lamentavelmente e descaradamente, não tomam ações efetivas de solução.......
    Quanto aos dados de Campinas, muito interessantes. Parabéns e ab!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Por dentro dos presídios – Cadeia do São Bernardo

      Tão logo formado em Ciências Jurídicas e Sociais e tendo obtido a inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil, prestei auxílio num projeto que estava sendo desenvolvido junto à Cadeia Pública de Campinas (esta unidade localizava-se na avenida João Batista Morato do Canto, n° 100, bairro São Bernardo – por sua localização, era apelidada “cadeião do São Bernardo”) pelo Juiz de Direito da 2ª Vara Criminal (que cumulava a função de Corregedor da Polícia e dos Presídios), Roberto Telles Sampaio: era o ano de 1977. Segundo esse projeto, um casal “adotava” uma cela (no jargão carcerário, “xadrez”) e a provia de algumas necessidades mínimas, tais como, fornecimento de pasta de dentes e sabonetes. Aos sábados, defronte à catedral metropolitana de Campinas, era realizada uma feira de artesanato dos objetos fabricados pelos detentos. Uma das experiências foi uma forma de “saída temporária”.       Antes da inauguração, feita com pompa...

A memória

A BBC publicou tempos atrás um interessante artigo cujo título é o seguinte: “O que aconteceria se pudéssemos lembrar de tudo” e “lembrar de tudo” diz com a memória. Este tema – a memória- desde sempre foi – e continua sendo – objeto de incontáveis abordagens e continua sendo fascinante. O artigo, como não poderia deixar de ser, cita um conto daquele que foi o maior contista de todos os tempos, o argentino Jorge Luis Borges, denominado “Funes, o memorioso”, escrito em 1942. Esse escritor, sempre lembrado como um dos injustiçados pela academia sueca por não tê-lo agraciado com um Prêmio Nobel e Literatura, era, ele mesmo, dotado de uma memória prodigiosa, tendo aprendido línguas estrangeiras ainda na infância. Voltando memorioso Funes, cujo primeiro nome era Irineo, ele sofreu uma queda de um cavalo e ficou tetraplégico, mas a perda dos movimentos dos membros fez com que a sua memória se abrisse e ele passasse a se lembrar de tudo quanto tivesse visto, ou mesmo (suponho) imaginado...

Dia de branco

Durante a minha adolescência era comum dizermos no domingo à noite: “vamos embora que amanhã é dia de branco”. Ou: “segunda-feira é dia de branco”. Ninguém sabia o significado destas palavras, mas, para nós, significava que deveríamos nos recolher porque no dia seguinte trabalharíamos. Depois de quase 50 anos passados dessa época, e tendo em vista o que li num jornal local, resolvi pesquisar no Google o significado da expressão. Tudo parece fácil hoje: basta abrir o “site” de busca e digitar o que se pretende buscar. Pois bem, digitada a expressão, surgiram várias referências e a que me chamou a atenção foi a do Yahoo, em que é escolhida uma resposta dentre as várias ali postadas. Transcrevo algumas: 1. “É uma frase extremamente preconceituosa e racista, e que vem sido citada desde o início do século passado. Seria como dizer que os negros são vagabundos e só os brancos trabalham.”; 2. “ouvi dizer q na época de escravidão, sábado e domingo eram a folga dos negros na époc...