Um dos personagens que vieram à luz nesse escândalo da compra de vacinas pelo Ministério da Saúde por preços superfaturados foi um auto intitulado reverendo, até então desconhecido. O seu depoimento na CPI da Pandemia teve algumas passagens dignas de registro nos anais da... comédia.
Não seria preciso dizer que ele compareceu amparado por uma liminar deferida monocraticamente (ou seja: por somente um ministro) pelo STF (sim, o tribunal que tem sofrido ataques diários mas que, os mesmos que o atacam nas redes sociais, socorrem-se dele quando precisam...) para que fosse respeitado o direito de não incriminar-se (“nemo tenetur se detegere”), como, aliás, é corriqueiro. Esse religioso conseguiu um milagre: foi recebido no Ministério da Saúde apenas duas horaa após enviar um e-mail, ao passo que a gigante do ramo farmacêutico, a multinacional Pfizer, não obteve resposta para nenhuma das mais de duas dezenas de mensagens enviadas àquele órgão público.
Ele iniciou o seu depoimento lendo aquilo que ele chamou como “uma apresentação do reverendo”. Depois de ler algumas páginas, sempre referindo-se a uma terceiro pessoa (“o reverendo”), um senador indagou:
- quem é esse reverendo?
Outro senador respondeu:
- é ele mesmo.
Ou seja: ele estava referindo-se a si como se fosse outra pessoa (seria o seu “alter ego”?). A tentativa de falcatrua teria sido praticada por outra pessoa e não ele?
Nesse momento lembrei de um episódio que se deu quando eu conversava com um preso que eu estava defendendo pela PAJ Criminal e às perguntas que que fazia ele respondia usando o verbo na terceira pessoa do singular.
- você entendeu o que eu expliquei?
- entendeu...
Era a linguagem do presídio.
Lembrei também que o Rei Pelé durante uma época, quando era entrevistado, respondia referindo-se ao Pelé, nunca usando a primeira pessoa do singular.
O ponto culminante do depoimento aconteceu quando um senador governista, apelando ao senso de religiosidade do “reverendo”, pediu-lhe que mostrasse arrependimento fazendo “um MEIA CULPA”. Ele, aparentemente, não fez meia, mas sim inteira: pediu perdão aos senadores, aos brasileiros, e desatou a chorar. Como estava usando máscara, ficou mais difícil perceber se eram lágrimas de crocodilo...
As sessões da CPI têm mostrado um detalhe, entre outros: ao tempo em que o general da banda era o ministro, o Ministério da Saúde era uma autêntica “casa da mãe joana”...
A BBC publicou tempos atrás um interessante artigo cujo título é o seguinte: “O que aconteceria se pudéssemos lembrar de tudo” e “lembrar de tudo” diz com a memória. Este tema – a memória- desde sempre foi – e continua sendo – objeto de incontáveis abordagens e continua sendo fascinante. O artigo, como não poderia deixar de ser, cita um conto daquele que foi o maior contista de todos os tempos, o argentino Jorge Luis Borges, denominado “Funes, o memorioso”, escrito em 1942. Esse escritor, sempre lembrado como um dos injustiçados pela academia sueca por não tê-lo agraciado com um Prêmio Nobel e Literatura, era, ele mesmo, dotado de uma memória prodigiosa, tendo aprendido línguas estrangeiras ainda na infância. Voltando memorioso Funes, cujo primeiro nome era Irineo, ele sofreu uma queda de um cavalo e ficou tetraplégico, mas a perda dos movimentos dos membros fez com que a sua memória se abrisse e ele passasse a se lembrar de tudo quanto tivesse visto, ou mesmo (suponho) imaginado...

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