Pular para o conteúdo principal

Campinas de antigamente



      O título remete ao saudosismo e esta palavra faz com que muitas pessoas, especialmente as mais jovens, “torçam o nariz”, como se o saudosismo fosse atributo dos idosos – ou dos mais idosos.
      Sem pretender ser saudosista – e já sendo – Campinas, há 50 anos passados, era bem melhor do que a atual. Digo há 50 anos pois faz exatamente esse tempo que a minha família veio de mudança de Jaú para cá, realizando algo que não mais poderia ser adiado. Chegamos aqui no dia 4 de fevereiro. É muito custoso para uma pessoa desenraizar-se de um local onde estava estabelecido para mudar-se para outra cidade, mas, muitas vezes, as circunstâncias impõem esse sacrifício. Foi o que ocorreu com a minha família: com os filhos atingindo a idade universitária e não existindo faculdade na cidade em que morávamos, a solução foi vir para Campinas.
      Eu já conhecia bem a cidade, pois, tendo muitos parentes morando aqui, era em Campinas que nós passávamos as nossas férias. E era como uma Disneyworld: uma cidade que tinha prédios altíssimos (em Jaú havia quando muito um, que não passava de oito andares) com elevador, bondes, lojas, pastelarias. Era incrível passear de bonde e o melhor era o Botafogo: os pontos inicial e final era ao lado da praça defronte ao fórum e pelo preço de uma passagem era possível fazer o trajeto completo. As demais linhas não proporcionavam esse deleite. Viajar no estribo era uma aventura, embora proibida, e se o cobrador visse, fazia uma advertência.
      Inicialmente fomos morar por alguns meses numa casa na rua Duque de Caxias, 818 - não existe mais, demolida que foi para a construção de um prédio de apartamentos -, defronte à praça Silvia Simões Magro, mais conhecida como jardim (ou largo) São Benedito. Nessa praça, e em outras, claro, havia um "zelador", que, munido de um apito, advertia as pessoas que não estavam se comportando bem, como pisando na grama. A advertência era um silvo. Não existia ainda a figura do "pichador", vândalo sempre armado com o seu "equipamento" e disposto a emporcalhar as paredes da cidade e as praças. Depois nos mudamos para a rua Uruguaiana, 722, próximo do Bosque dos Jequitibás, onde permanecemos até o mês de outubro. Fomos depois morar próximo ao Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora e o bairro era servido pela linha de bonde 4-Guanabara, com ponto final na avenida Barão de Itapura, ao lado da igreja: o vagão parava e o cobrador virava os encostos dos bancos; quem pretendesse ficar pagava outra passagem. O bairro também era servido por linha de ônibus (CCTC), com o mesmo numeral e nome: 4-, cujo ponto era na avenida Campos Salles ao lado do fórum. O último coletivo saía dali meia-noite e meia e se o perdêssemos, a solução era ir caminhando até nossas casas. Não havia a menor possibilidade de ser “assaltado”.
      Comer esfiha e pastel, acompanhado uma ou outro de um refrigerante tubaína, na pastelaria Nova China, no Supermercado Campineiro, era a realização de um sonho gastronômico. A primeira mordida na esfiha liberava um líquido que, se não tomássemos cuidado, molharia as calças.
      Outra delícia gastronômica era tomar lanche nas Lojas Americanas da rua Treze de Maio: o sanduíche clube LASA era o carro-chefe do cardápio. Havia o cachorro-quente quase nos mesmos moldes do vendido nos Estados Unidos, sem essa profusão de ingredientes como hoje existe. Às vezes, o lanche era precedido da compra de um disco compacto 33 rpm. Um dos que eu adquiri ali foi “Carcará”, com Maria Bethânia. Um 78 rpm ali comprado: “Hava nagila”, com Chubby Checker.
      De lá até os presentes dias a cidade cresceu desmesuradamente e sem nenhum planejamento, tornando-se grande e feia. É difícil entender a abolição dos bondes quando cidades de primeiro mundo, como na Europa, mantêm esse meio de transporte. Berna, por exemplo. O crescimento desmesurado continua até os dias atuais, com a construção de incontáveis prédios de apartamentos, entupindo as ruas e avenidas de veículos, muitos adquiridos com aquele incentivo dado pelo governo federal.
      A Campinas de antigamente, alcunhada “cidade das andorinhas”, está aos poucos desaparecendo, restando dela apenas as lembranças daqueles que, como eu, conheceram-na quando fazia jus a outro epíteto: “a princesa do oeste”.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por dentro dos presídios – Cadeia do São Bernardo

      Tão logo formado em Ciências Jurídicas e Sociais e tendo obtido a inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil, prestei auxílio num projeto que estava sendo desenvolvido junto à Cadeia Pública de Campinas (esta unidade localizava-se na avenida João Batista Morato do Canto, n° 100, bairro São Bernardo – por sua localização, era apelidada “cadeião do São Bernardo”) pelo Juiz de Direito da 2ª Vara Criminal (que cumulava a função de Corregedor da Polícia e dos Presídios), Roberto Telles Sampaio: era o ano de 1977. Segundo esse projeto, um casal “adotava” uma cela (no jargão carcerário, “xadrez”) e a provia de algumas necessidades mínimas, tais como, fornecimento de pasta de dentes e sabonetes. Aos sábados, defronte à catedral metropolitana de Campinas, era realizada uma feira de artesanato dos objetos fabricados pelos detentos. Uma das experiências foi uma forma de “saída temporária”.       Antes da inauguração, feita com pompa...

A corrupção, a violência e o ministro

         O Supremo Tribunal Federal está julgando presentemente uma ADIn em que é discutida a constitucionalidade de um decreto presidencial que concedeu indulto (de Natal) [1] . Um dos pontos da arguição reside no fato de que alguns condenados pelo crime de corrupção [2] seriam agraciados.      Em primeiro lugar, é de se dizer que, por preceito constitucional, é atribuição exclusiva do presidente da República conceder essa forma de extinção total ou parcial da pena. Extingue totalmente o restante de pena a ser cumprido ou extingue parte da pena que falta ser cumprida.      Em segundo lugar, não cabe discussão sobre a constitucionalidade do decreto. O presidente, por intermédio desse decreto e no exercício do poder discricionário, concede a extinção da punibilidade para os crimes que ele bem entender. Cabe aqui uma explicação: esse tipo de indulto é chamado de coletivo, porque atinge um número indeterm...

Dia de branco

Durante a minha adolescência era comum dizermos no domingo à noite: “vamos embora que amanhã é dia de branco”. Ou: “segunda-feira é dia de branco”. Ninguém sabia o significado destas palavras, mas, para nós, significava que deveríamos nos recolher porque no dia seguinte trabalharíamos. Depois de quase 50 anos passados dessa época, e tendo em vista o que li num jornal local, resolvi pesquisar no Google o significado da expressão. Tudo parece fácil hoje: basta abrir o “site” de busca e digitar o que se pretende buscar. Pois bem, digitada a expressão, surgiram várias referências e a que me chamou a atenção foi a do Yahoo, em que é escolhida uma resposta dentre as várias ali postadas. Transcrevo algumas: 1. “É uma frase extremamente preconceituosa e racista, e que vem sido citada desde o início do século passado. Seria como dizer que os negros são vagabundos e só os brancos trabalham.”; 2. “ouvi dizer q na época de escravidão, sábado e domingo eram a folga dos negros na époc...