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Memórias das copas do mundo




    
  Para mim, tudo começou em 1958: então com 10 anos e mal entendendo das coisas, acompanhei pelo rádio, vendo o meu irmão mais velho soltando rojões, a primeira vitória da seleção brasileira numa copa do mundo, então chamada Jules Rimet. O torneio ocorreu na Suécia. O fenômeno Pelé, então com 17 anos surgiu ali. O que falar, então, de Didi, Garrincha, Nilton Santos, Bellini?
      Quatro anos depois, foi na América do Sul, mais precisamente no Chile, e novamente a seleção brasileira trouxe a taça. Embora Pelé não tivesse podido jogar todas as partidas, o time não se ressentiu de sua ausência, substituído que foi por Amarildo, o “peito de aço” (os narradores esportivos de então tinham o hábito de colocar apelidos nos jogadores).
      Na copa seguinte, 1966, que seria, como foi, jogada na Inglaterra, o selecionador brasileiro acreditou que a vitória eram “favas contadas” e fez uma “lambança”, porém, ele não contava com o preparo das outras seleções e a brasileira foi eliminada.
      Quem vencesse a competição por três vezes ficaria em definitivo com a taça e o que se viu no México foi talvez a melhor seleção que o Brasil já teve: craques como Tostão, Pelé, Gerson, Rivelino, Clodoaldo, Jairzinho (“furacão”) e outros tantos brilhando em campo. A taça veio definitivamente para o nosso rincão, mas teve vida curta: retratando fielmente a tradição brasileira, a de não respeitar nenhum símbolo nacional, a taça foi furtada e derretida.
      Depois desse torneio, a seleção brasileira ficou em jejum durante 24 anos, até que, em 1994, em solo estadunidense, abocanhou pela quarta vez a copa, agora sem que houvesse uma regra tornando-a definitiva: a sua posse era provisória, durando quatro anos (até o torneio seguinte).
      Mais oito anos de jejum até que em solo asiático, agora no longínquo ano de 2002, a seleção brasileira pela quinta vez tornou-se campeã.
      O tempo passa, as pessoas envelhecem, os conceitos mudam, e no ano de 2007 o governo brasileiro batalhou para que a copa de 2014 fosse no Brasil; conseguiu o aval da FIFA e teve sete anos para preparar o país para receber esse mais importante evento do futebol. O que se viu durante os sete anos de (suposta) preparação foi aquilo que se vê a diário no Brasil: tudo deixado para a última hora. O brasileiro não deixa para fazer a declaração de imposto de renda na última semana, quiçá na véspera do encerramento do prazo (que, em geral, é de dois meses)? Outro cenário bem brasileiro que se concretizou: obras totalmente inúteis custando “os olhos da cara” (“arenas” de Cuiabá e Manaus).
      É certo que aqui pode entrar um componente de desonestidade: para que as obras sejam aceleradas, às vezes são necessários aditamentos nos contratos, encarecendo astronomicamente o seu custo. Estádios (no linguajar dos dirigentes da FIFA, “arenas”) ficando prontos praticamente na véspera do início do evento, e obras de acessibilidade não ficando prontas (um viaduto em Belo Horizonte desabou enquanto era construído em pleno desenvolvimento dos jogos do torneio).
      E, quanto ao futebol propriamente dito, o que se viu foi algo semelhante ao que ocorreu em 1966: a CBF contratou uma comissão técnica envelhecida, com um técnico cujo único feito foi ter vencido a copa de 2002 com outra geração de jogadores (afinal, passaram 12 anos...), que convocou jogadores quase todos sem experiência em competições internacionais, com comportamento de amadores (aliás: se fossem amadores teriam se dado melhor). Atletas que ficavam dando demonstração de pieguice sempre que podiam, tais como, entrar em campo com a camisa do Neymar na partida que ele não pôde jogar, ou ficar orando em campo (oração se faz em templos – nem as seleções de países muçulmanos, às vezes composta de fanáticos, deram esse tipo de demonstração).
      E essa seleção de inexperientes sucumbiu fragorosamente quando teve pela frente seleções bem estruturadas, tendo levado dez gols em duas partidas e fazendo apenas um.
      Poder-se-ia dizer: ainda bem que sucumbiu (mas não precisava ser de forma tão humilhante...), pois se tivesse triunfado, certamente o partido que está no poder há onze anos e destruindo o país teria um trunfo a mais em mãos para continuar a sua destruição.


     

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