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Uma noite (de terror) em Paris - II



      Muitas pessoas perguntam se foi muito assustadora a noite de 13 de novembro de 2015 quando estávamos em Paris; outras, diferentemente, já vão perguntando sobre o tamanho do susto que tomamos quando ocorreram os ataques. Ou dizem logo: "que susto, hein"?
      Na realidade, não foi muito assustador, pelo menos para mim; minha mulher, assustou-se bastante. Por alguns motivos, não tive medo. Um deles é que, quando tomamos conhecimento dos ataques, eles já haviam acontecido e quando aconteceram estávamos no meio de um jantar num restaurante ao lado da Catedral de Notre Dame, saboreando a autêntica cozinha francesa. Embora eles tivessem terminado, sobra sempre um receio, pois esses ataques covardes são imprevisíveis: bombas de tempo colocadas em carros estacionados na via pública, outras tantas colocadas em lixeiras, como, aliás, já aconteceu.
      Em segundo lugar, o barulho das sirenes – de carros policiais, dos bombeiros, resgate – que cortavam a cidade perduraram por toda a madrugada, até por volta de cinco horas, quando, então, temporariamente cessaram. Se elas eram ouvidas, era porque as autoridades estavam atuando. A prefeitura aconselhou que as pessoas não saíssem de casa no sábado; algumas estações do metrô (local às vezes preferido pelos terroristas) não abriram, dificultando a locomoção. Umas lojas não abriram as portas: ao lado do hotel havia uma “boulangerie” com todas aquelas delícias parisienses que permaneceu fechada, assim como alguns cafés ao redor do hotel. Além disso, foram fechadas as fronteiras e temíamos que os voos fossem adiados (o nosso sairia no sábado, 14/11, 21 horas). Mais um complicador: poucos táxis circulavam. Como iríamos ao aeroporto? , era a pergunta que nos assediava. Esse era o meu temor.
      Porém, tudo correu bem e o voo atrasou-se em apenas 10 minutos.
      A razão decisiva que me levou a não ter medo foi ter enfrentado uma situação algo assemelhada àquela, na qual, todavia, eu estava diretamente envolvido. Ela ocorreu quando eu prestava o serviço militar, no ano de 1968. Eu compria esse tempo no 1° BCCL – 1° Batalhão de Carros de Combate Leves. Nesse ano, o grupo terrorista VAR-Palmares (de que fazia parte Dilma Rousseff – e ela se orgulha disso...) lançou uma caminhonete carregada de explosivos contra o quartel do II Exército, no Ibirapuera, matando um sentinela, o soldado Mario Kozel Filho: tínhamos a mesma idade. Sob esse aspecto, pode-se afirmar que o Brasil foi pioneiro, graças ao grupo da Dilma, na construção – e explosão – de carros-bomba, antecedendo os fanáticos religiosos do oriente médio. Eu era motorista de carro de combate (a guarnição compunha-se do motorista, auxiliar, atirador e chefe de grupo).
      Naquela noite, com uns amigos, eu tinha ido a uma festa junina e chegara de madrugada em casa. Mal tinha “pregado os olhos”, dormindo algumas poucas horas, meu pai me despertou pois um grupo do Exército fora me buscar. Mal acreditando no que ouvi, abri a janela e um dos soldados, que eu conhecia, disse que havia “estourado” uma prontidão e eu deveria ir ao quartel; aliás, eles estavam ali para isso (estavam indo de casa em casa buscando os soldados). Foi dito a mim que me fardasse e apanhasse uma muda de roupa, pois iríamos viajar. Mal desperto, fiz o que me foi determinado e embarquei naquele caminhão militar em direção ao quartel.
(Continua na parte III)

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