Pular para o conteúdo principal

Joaquim Barbosa, Hanna Arendt, o julgamento McMartin e a Escola de Base




      Joaquim Barbosa, desculpem dizer – pois poucas pessoas ignoram – é o presidente do Supremo Tribunal Federal e muito antes de ser “eleito” para presidir a mais alta corte de justiça brasileira foi designado ministro relator da Ação Penal n° 470 – “mensalão”. Ele foi nomeado no primeiro mandato do presidente molusco, digo, Lula, em obediência, por assim dizer, a uma cota de afrodescendentes – foi o primeiro negro a ser nomeado para o cargo de ministro do STF. Quando foi indicado, como é de praxe, contra ele foi lançada uma acusação, de “violência doméstica” contra sua ex-mulher, o que rendeu a elaboração de um TCO, posteriormente arquivado porque a vítima não pretendeu a sua punição. O episódio se deu antes do advento da Lei Maria da Penha. Na função de relator – diga-se, a mais importante no julgamento de qualquer feito – ele foi “impiedoso” com os mensaleiros petistas, que, imotivadamente, esperavam dele algum beneplácito – ou misericórdia. Frustraram-se. Eleito presidente e, claro, permanecendo relator, foi duro no julgamento, impondo penas severas (rompendo com o mito da pena mínima) e, em seguida, decretando a prisão daqueles que não podiam mais manejar nenhum recurso – vale dizer, a parte do acórdão que os condenava havia transitado em julgado.
      Sobre Hanna Arendt preciso escrever pouco – tempos atrás postei no meu blog um texto sobre o filme (lindo)  “Hanna” (abaixo está o “link”). Em seu livro “Eichmann em Jerusalém” ele tece críticas contra o Promotor de Justiça que presidia o grupo de acusadores oficiais contra Eichmann; uma delas era que o promotor queria transformar o julgamento numa peça teatral.
      “The indictement – the McMartin Trial”, que no Brasil tomou o nome de “Acusação”, com James Woods no papel principal, é um filme que narra o sofrimento de uma família proprietária de uma escola infantil em Manhattan Beach, Califórnia, Estados Unidos, cujos membros foram acusados de praticar atos sexuais contra alguns alunos. O processo se desenrolou por vários anos e desembocou num “mistrial” – os jurados permaneceram num impasse, o que inviabilizou tanto a condenação quanto a absolvição. A cena a meu ver mais impressionante é aquela em que um dos membros da Promotoria, durante uma reunião, pede a palavra e diz que eles não tinham um caso por falta de provas. O Promotor-chefe então lembra-o que está pleiteando a reeleição e que o caso precisa continuar, pois, assim, ele permanecerá na mídia e será reeleito.
      A Escola de Base – o caso é quase uma cópia do “McMartin trial” – era uma escola infantil em São Paulo, capital, e os seus proprietários foram acusados de “abuso sexual” contra algumas crianças, foram presos temporariamente, o Delegado de Polícia que presidiu o inquérito convocava entrevistas coletivas para falar do caso e, claro, incriminando os suspeitos, a escola foi depredada e, após todo o estrago, repôs-se a realidade: era tudo invenção das crianças. O estado de São Paulo arcou com as indenizações. O caso do Bar Bodega seguiu pela mesma trilha.
      Qual é o fio que enlaça todos os acontecimentos? Uma parte da mídia está acusando o ministro relator de tomar decisões que buscam a sua notoriedade, ou seja, ocupar a diário parte da mídia brasileira (quiçá internacional), mas tal acusação esbarra num grande equívoco: quem toma atitudes buscando ocupar algum (ou muito) tempo na mídia quer um benefício posterior, o que parece que Joaquim Barbosa não busca: afinal, ele atingiu o mais alto cargo do Poder Judiciário, um dos três poderes da República e, ademais, ele é avesso a entrevistas – aliás, tem sido rude com repórteres -, o que contrasta com a atitude de pessoas que querem todos os holofotes voltados para si. Ademais, a forma enraivecida com que ele se refere aos réus, sabendo que desgostará a classe política em sua totalidade, é incondizente com uma suposta pretensão de alçar-se a um cargo público por eleição - os políticos certamente cerrarão todas as portar que permitiriam o seu acesso.
     




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por dentro dos presídios – Cadeia do São Bernardo

      Tão logo formado em Ciências Jurídicas e Sociais e tendo obtido a inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil, prestei auxílio num projeto que estava sendo desenvolvido junto à Cadeia Pública de Campinas (esta unidade localizava-se na avenida João Batista Morato do Canto, n° 100, bairro São Bernardo – por sua localização, era apelidada “cadeião do São Bernardo”) pelo Juiz de Direito da 2ª Vara Criminal (que cumulava a função de Corregedor da Polícia e dos Presídios), Roberto Telles Sampaio: era o ano de 1977. Segundo esse projeto, um casal “adotava” uma cela (no jargão carcerário, “xadrez”) e a provia de algumas necessidades mínimas, tais como, fornecimento de pasta de dentes e sabonetes. Aos sábados, defronte à catedral metropolitana de Campinas, era realizada uma feira de artesanato dos objetos fabricados pelos detentos. Uma das experiências foi uma forma de “saída temporária”.       Antes da inauguração, feita com pompa...

A memória

A BBC publicou tempos atrás um interessante artigo cujo título é o seguinte: “O que aconteceria se pudéssemos lembrar de tudo” e “lembrar de tudo” diz com a memória. Este tema – a memória- desde sempre foi – e continua sendo – objeto de incontáveis abordagens e continua sendo fascinante. O artigo, como não poderia deixar de ser, cita um conto daquele que foi o maior contista de todos os tempos, o argentino Jorge Luis Borges, denominado “Funes, o memorioso”, escrito em 1942. Esse escritor, sempre lembrado como um dos injustiçados pela academia sueca por não tê-lo agraciado com um Prêmio Nobel e Literatura, era, ele mesmo, dotado de uma memória prodigiosa, tendo aprendido línguas estrangeiras ainda na infância. Voltando memorioso Funes, cujo primeiro nome era Irineo, ele sofreu uma queda de um cavalo e ficou tetraplégico, mas a perda dos movimentos dos membros fez com que a sua memória se abrisse e ele passasse a se lembrar de tudo quanto tivesse visto, ou mesmo (suponho) imaginado...

Dia de branco

Durante a minha adolescência era comum dizermos no domingo à noite: “vamos embora que amanhã é dia de branco”. Ou: “segunda-feira é dia de branco”. Ninguém sabia o significado destas palavras, mas, para nós, significava que deveríamos nos recolher porque no dia seguinte trabalharíamos. Depois de quase 50 anos passados dessa época, e tendo em vista o que li num jornal local, resolvi pesquisar no Google o significado da expressão. Tudo parece fácil hoje: basta abrir o “site” de busca e digitar o que se pretende buscar. Pois bem, digitada a expressão, surgiram várias referências e a que me chamou a atenção foi a do Yahoo, em que é escolhida uma resposta dentre as várias ali postadas. Transcrevo algumas: 1. “É uma frase extremamente preconceituosa e racista, e que vem sido citada desde o início do século passado. Seria como dizer que os negros são vagabundos e só os brancos trabalham.”; 2. “ouvi dizer q na época de escravidão, sábado e domingo eram a folga dos negros na époc...