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Descendo às trevas




      Na introdução do (magnífico) filme intitulado “Freud, além da alma”[1], dirigido por John Huston, uma voz (que é a do próprio diretor), diz a seguinte frase: “esta é a história da viagem de Freud a uma região quase tão negra quanto o próprio inferno – o inconsciente – e de como ele a iluminou”.  O inconsciente foi denominado por Freud de “id”.
             Nelson Rodrigues, conforme relata Ruy Castro[2], afirmou em uma crônica que “o brasileiro tem as suas trevas interiores. Convém não provoca-las. Ninguém sabe o que existe dentro”.  Seria o mesmo conteúdo “iluminado” por Freud? Somente a própria pessoa poderá dizer, seguindo o inscrito no tempo de Apolo de Delfos: “conhece-te a ti mesmo”.
            Essas lembranças me vieram à mente ao acompanhar a apuração do fato que resultou na covarde morte do cinegrafista da Rede Bandeirantes (os detalhes mais do que canalhas do evento é do conhecimento de todos) e especialmente de três das pessoas de alguma forma envolvidas: Elisa Quadros, Fábio e Caio. A primeira, injustamente apelidada de “Sininho”[3], porque daquela doce fadinha do conto  escrito por James Matthew Barrie em 1904, “Peter and Wendy”, ela não tem nada, tem 28 anos, era filiada ao PT (claro), desfiliando-se quando se decepcionou com certas alianças feitas pelo partido (com Maluf? com Collor?). Seus pais moram no Rio Grande do Sul e são militantes petistas - o fruto não cai longe da árvore.  Não se sabe quais são os seus meios de sobrevivência, já que não trabalha.
            Fabio é tatuador – autônomo, pois - e já teve alguns envolvimentos com o sistema punitivo. Foi ele quem deu o rojão para que outra pessoa, de nome Caio, o acendesse.
            Caio tem 22 anos, o que acendeu o rojão que atingiu o cinegrafista, mora na baixada fluminense, é um “faz-tudo” (auxiliar de serviços gerais) terceirizado num hospital no Rio de Janeiro. É pobre.
            O que faz com que três pessoas tão díspares sejam travestidas em “black blocs”e participem de manifestações violentas, uma das quais culminou numa morte? Não são as trevas de que falou Nelson Rodrigues, nem “a região quase tão negra quanto o próprio inferno”, conforme a introdução do filme dirigido por John Huston. Nem algum ideal, óbvio.  O que seria, então? Um deles, Caio, admitiu, balbuciando, quando foi preso, que eles são convocados para participar dessas violentas manifestações, e o seu advogado usou um verbo mais contundente: eles são aliciados para se tornarem “black blocs”. Por quem?
            Disse magistralmente Philip Roth que quando não se sabe a história inteira deve se supor. Baseado em indícios, é legítimo supor que partidos políticos e algumas organizações, os que apostam no “quanto pior, melhor”, estejam por trás desses atos de selvageria. Quando se encaminhava para a delegacia de polícia para atender Fabio, o estagiário do advogado Jonas (que a baleia não o engula...) recebeu um telefonema de “Sininho” (os seus dotes de fada a fizeram adivinhar o número do telefone), colocando à disposição uma equipe de“criminalistas experientes”para ajudar na defesa. Ele passou o aparelho ao advogado (Jonas) e a oferta foi reiterada, com o acréscimo de que ela falava em nome de Marcelo Freixo, deputado estadual no Rio de Janeiro pelo PSOL (este político teve um personagem no filme “Tropa de Elite 2”baseado  em sua atuação). Claro que “Sininho” depois retratou-se, mas o estrago estava feito. Ouvido, o deputado mostrou-se indignado com a utilização indevida de seu nome.
            Se for investigada não apenas a morte de Santiago, mas quem alicia e financia (como um trabalhador pobre como Caio consegue dinheiro para comprar máscaras e locomover-se?), fatalmente se chegará a partidos políticos e organizações. Eles é que são as trevas e a “região quase tão negra quanto o próprio inferno” dos presentes dias, por conta das manifestações, não somente as pessoas que delas participam.





[1] . É do ano de 1962, com as atuações de Montgomery Clift, Susannah York e David McCallum. O roteiro original foi escrito por Jean-Paul Sartre, mas não foi utilizado.
[2] . “Trevas dos brasileiros”, FSP, 12/2/14, página A2.
[3] . Injustamente porque a “Sininho”, conhecida em inglês por “Tinker Bell”, era de uma pureza ímpar.

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