Pular para o conteúdo principal

Direito ao acesso


 
      Seria a quinta vez que iríamos para Miami a fim de assistir ao Sony Open Tennis (ATP 1000 de Miami), com direito a “dar uma esticada” a Las Vegas (cidade que tínhamos conhecido no ano de 2005), num total de 19 dias. Passagens compradas, hospedagens contratadas, e uma semana antes do embarque a minha mulher sofreu uma queda e fraturou um osso do dedo mínimo do pé esquerdo; na mesma segunda-feira, fomos ao pronto-socorro e o médico que a atendeu constatou a fratura, aconselhando-a a não viajar. A princípio, cogitamos de cancelar tudo, obtendo o ressarcimento do que fosse possível e arcar com o prejuízo do demais.
      Como foi um atendimento de emergência e embora o médico fosse ortopedista, no dia seguinte ela foi a outro médico, um nosso conhecido, que também constatou a fratura, mas não a aconselhou a não viajar. Recomendou que, se ela “abusasse” (andasse muito, usando muletas), o pé incharia, mas bastaria um repouso com ele para cima que tudo se resolveria. Não havia perigo de gangrena, infecção, ou qualquer outra complicação.
      Decididos a ir, telefonei para a American Airlines e comuniquei o ocorrido, indagando, principalmente, como ela faria para guardar as muletas durante o voo. A pessoa que me atendeu, do escritório em Campinas (Giuliana), anotou o número do bilhete e disse que “iria tomar providências”. Começou uma sucessão de atenções que nós nunca tínhamos visto. No balcão da companhia aérea em Guarulhos já havia uma cadeira de rodas à espera de minha esposa e as passagens dos quatro voos haviam sido remarcadas, todas para a primeira fila, a que tem mais espaço. Ao aterrissarmos em Miami, na porta do avião (a bem dizer, do “finger”) outra cadeira de rodas a esperava, ostentando uma placa com o seu nome. Enfim, em todos os aeroportos em que estivemos.
      Nos Estados Unidos a história não foi diferente: no Crandon Park, onde se realiza o torneio, bastava que eu entregasse um documento e me era entregue uma cadeira de rodas e o acesso às quadras era especial, com a “cadeirante” ficando a poucos metros dos jogadores (exceto no estádio principal – “stadium” -, porque são vários níveis, mas havia espaço apropriado para “estacionar” a cadeira).
      Em supermercados – Walmart, por exemplo – era cedido um carrinho elétrico para as compras; em shoppings – Dadeland Mall, por exemplo – era cedida gratuitamente a cadeira de rodas.
      O ápice foi em Las Vegas. Alugamos uma (por eles chamada de) “scooter” no próprio hotel-cassino em que estávamos hospedados e transitar pela “cidade do jogo” foi uma facilidade. A principal avenida da cidade, Las Vegas Boulevard, não tem travessia de chão, exceto no cruzamento com a Monte Carlo: todas as travessias devem ser feitas por passarelas. Pois ao pé de cada uma delas há uma escada rolante, uma escada convencional e um elevador. Fomos assistir a três shows e em cada um era a mesma facilidade tanto para entrar, quanto para estacionar a “scooter”. No show do Elton John, no The Colosseum, Caesars Palace, a própria pessoa que recolhia os ingressos e mostrava o assento manobrou o aparato para estaciona-lo.
      Minha mulher levou o raio-X e as receitas para provar que estava com o pé fraturado, embora eu tivesse dito a ela que iríamos para um país de primeiro mundo, em que as pessoas acreditam no que é dito e foi isso mesmo o que aconteceu: em nenhum momento pediram a nós que provássemos que ela estava com deficiência de locomoção – bastou a nossa palavra.
      Não sei porque o Brasil não tem essa mesma política de atenção, aliás, sei: é que aqui, a pessoa deficiente é tratada como lixo, embora um dos pilares do Estado Democrático de Direito seja a dignidade da pessoa humana, conforme está escrito na “constituição cidadã”.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

William Waack e o racismo

A mulher honesta no Código Penal

O Código Penal de 1940 (que entrou em vigor no ano de 1942, a 1º de janeiro) trazia no artigo 215 – crimes contra os costumes - a descrição da conduta criminosa chamada “posse sexual mediante fraude”. Era, por assim dizer, o oposto do estupro, que vinha descrito no artigo 213, em que a conjunção carnal era obtida mediante o emprego de violência ou grave ameaça. Na “posse”, a conjunção carnal era obtida com o emprego de fraude, o que levou algum doutrinador a apelida-la de “estelionato sexual”. A descrição típica era esta: “ter conjunção carnal com mulher honesta, mediante fraude”, com a pena de reclusão, de 1 a 3 anos. O artigo seguinte (216) definia o crime de atentado ao pudor mediante fraude, assim redigido: “induzir mulher honesta, mediante fraude, a praticar ou permitir que com ela se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal", com a pena de reclusão de 1 a 2 anos. O emprego do conceito “mulher honesta”, ou somente “honesta” vem de longa data, desde as Ordenações Fi…

A morte do prefeito

Aquela tinha sido em Campinas uma segunda-feira como todas as outras de fim de inverno, quase início de primavera: ensolarada, quente e com bastante trabalho, mais parecendo um dia de verão. Aulas no período da manhã na Faculdade de Direito da PUCCamp, audiências no período da tarde na Vara do Júri da comarca de Campinas, com uma ida antes e outra depois à Seccional de Assistência Judiciária da Procuradoria Regional de Campinas. Aulas também no período noturno. Por volta de onze e meia da noite, quando já estava preparado para dormir, soou o telefone fixo de minha casa. Pelo horário, um telefonema pode ser sintoma de má notícia: era, mas não envolvendo ninguém da família. Do outro lado da linha, uma parente, emocionada, dizia, aos prantos, para ligar a televisão num canal local: o Prefeito Toninho havia sido morto. Liguei o aparelho e me inteirei da notícia. O susto foi imenso, porém nada havia a fazer senão dormir. Mal imaginava de depois de aproximadamente um ano eu estaria atuando …