Pular para o conteúdo principal

Dia de branco

Durante a minha adolescência era comum dizermos no domingo à noite: “vamos embora que amanhã é dia de branco”. Ou: “segunda-feira é dia de branco”. Ninguém sabia o significado destas palavras, mas, para nós, significava que deveríamos nos recolher porque no dia seguinte trabalharíamos. Depois de quase 50 anos passados dessa época, e tendo em vista o que li num jornal local, resolvi pesquisar no Google o significado da expressão. Tudo parece fácil hoje: basta abrir o “site” de busca e digitar o que se pretende buscar. Pois bem, digitada a expressão, surgiram várias referências e a que me chamou a atenção foi a do Yahoo, em que é escolhida uma resposta dentre as várias ali postadas. Transcrevo algumas:
1. “É uma frase extremamente preconceituosa e racista, e que vem sido citada desde o início do século passado. Seria como dizer que os negros são vagabundos e só os brancos trabalham.”;
2. “ouvi dizer q na época de escravidão, sábado e domingo eram a folga dos negros na época escravizados... quando estava chegando o fim do domingo, eles diziam entre si: “vamos dormir cedo pq amanhã é dia de branco”, ou seja, amanhã é dia de trabalhar para os senhores Brancos... e assim ficou!!! quero deixar claro q não sei se essa historia é verídica!”; 
3. “É porquê segunda-feira é regida pela lua cuja cor é branca, ja a terça-feira é regida por marte cuja cor é vermelha ….. Fonte(s): astrologia”.
A eleita como a melhor resposta foi a primeira e a meu ver é porque ela pretende ser “politicamente correta”: ela não dá nenhum fundamento à explicação. A segunda é mais coerente e a terceira, embora fundamentada na Astrologia, tem explicação também na língua espanhola: segunda-feira em espanhol é "lunes" - Lua (que é branca, prateada), e terça-feira é "martes" - Marte (o planeta vermelho).
Um jornal local - METROCAMPINAS - trouxe, numa das edições da semana passada, uma nota que noticiava que o inquérito policial instaurado a pedido de uma associação pela suposta prática do crime de racismo por um vereador fora arquivado. Delito do vereador: dizer que Campinas estava "negra" por conta das ações dos pichadores.
Os tempos atuais se mostram assim: certas expressões e manifestações são vistas por algumas pessoas (físicas ou jurídicas) como racistas e pede-se a punição do suposto acusado. Se ele estiver morto e, portanto, não puder mais ser punido e a suposta ofensa estiver eternizada em algum escrito, "corrige-se" o escrito, não importando o contexto histórico em que ele tenha sido produzido.  O fenômeno, desgraçadamente, não é apenas nacional: nos EUA, um livro de Mark Twain foi reeditado e foram suprimidas palavras e expressões ofensivas aos negros, embora cabíveis naquele contexto histórico. Já se tentou isso com relação às obras de Monteiro Lobato. Mas isto merece um texto novo, o que será feito em breve.
O que eu queria dizer é que esse "politicamente correto" é muitas vezes uma máscara para que se pratique uma verdadeira "caça às bruxas" (que estas não queiram me processar  por preconceito...).




Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A memória

A BBC publicou tempos atrás um interessante artigo cujo título é o seguinte: “O que aconteceria se pudéssemos lembrar de tudo” e “lembrar de tudo” diz com a memória. Este tema – a memória- desde sempre foi – e continua sendo – objeto de incontáveis abordagens e continua sendo fascinante. O artigo, como não poderia deixar de ser, cita um conto daquele que foi o maior contista de todos os tempos, o argentino Jorge Luis Borges, denominado “Funes, o memorioso”, escrito em 1942. Esse escritor, sempre lembrado como um dos injustiçados pela academia sueca por não tê-lo agraciado com um Prêmio Nobel e Literatura, era, ele mesmo, dotado de uma memória prodigiosa, tendo aprendido línguas estrangeiras ainda na infância. Voltando memorioso Funes, cujo primeiro nome era Irineo, ele sofreu uma queda de um cavalo e ficou tetraplégico, mas a perda dos movimentos dos membros fez com que a sua memória se abrisse e ele passasse a se lembrar de tudo quanto tivesse visto, ou mesmo (suponho) imaginado...

As finalidades da pena e as redes sociais

A partir de um certo momento do desenvolvimento do Direito Penal, começou uma interessante discussão acerca da finalidade da pena. Por assim dizer, “tirar um proveito” sobre esse tão importante momento, o momento culminante, em que o condenado cumpre a pena que lhe foi imposta. Formularam-se teorias sobre essa finalidade e as mais importantes têm a sua formulação em latim: punitur quia peccatum est, punitur ne peccetur e uma terceira que é mescla destas duas: punitur quia peccatum est et ne peccetur. Em vernáculo: pune-se porque pecou, pune-se para que não peque e pune-se porque pecou e para que não peque. A teoria dita absoluta é um fim em si mesma: pune-se por que pecou. Nada além disso, uma manifestação da lei de talião. Praticamente não tira nennuj proveito da atividade punitiva. Já o “pune-se para que não peque”, procura, esta sim, tirar um proveito da aplicação da pena, de uma forma especial e uma forma geral. Punido, o sujeito ativo não reincidirá e, ademais, servirá como um...

Mario Vargas Lllosa

Faleceu, aos 89 anos, o premiado escritor peruano Mario Vargas Llosa. Autor de muitos livros, alguns maravilhosos, e ganhador de vários prêmios, dentre os quais avulta o Nobel de Literatura. A forma como eu conheci a sua obra foi acidental. Eu fazia parte de um grupo chamado Círculo do Livro (não existe mais) e cada sócio tinha obrigação de comprar um exemplar por mês, e, caso não comprasse, o grupo enviava um exemplar de qualquer obra do catálogo. O mês estava por vencer e eu não tinha ainda comprado nenhum. Folheei o catálogo às pressas para comprar um – qualquer um – e um título atraiu a minha atenção: “Pantaleão e as visitadoras”, de autoria de Mario Vargas Llosa, escritor de quem eu nunca tinha ouvido falar. Li a obra e adorei e, a partir daí, comecei a comprar todas as que iam sendo publicadas, verdadeiras joias. Para registrar: Pantaleão e as visitadoras converteu-se em filme. Um dos seus livros chama-se “A guerra do fim do mundo”, que retrata, com personagens reais e fictí...